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Cala-te boca maldita

Cala-te boca maldita, Se não for para amaldiçoar, Não se abra. Se não for para causar intriga, Não se abra. Se não tens a quem condenar, Não se abra Não faz parte disto. Não pertence a isto. Não causa riso, Nem encanto. Calo-te boca maldita.

PERDÃO, SOU UM PECADOR EM VÃO.

Desejos promíscuos, Quem é que não tem, Mas há de ser cruel demais Alimentar-se desse fél. Que é o gosto, de outro alguém sangrar? Se dos olhos derramar As gotas de angustia. Suplicas falso perdão, Sabe quem tu és E que de novo, vai sangrar por ti. Olhas nos meus olhos Por detrás do espelho, Tão quais quanto os teus. Me diz: Pra que mais dela quer ? Se pra ela não se quer dar. Sangra ti então Esforça-te pelo perdão Ou deita logo o leite ao chão.

HOJE ALIMENTEI UM DEMÔNIO.

Hoje alimentei um Demônio Com uma taça de sangue E três moedas de ouro. Por menos provável que fosse No primeiro e único vacilo Enganei-o. Amarrei com cordas de ódio, Prendi seus pés com correntes de rancor e Amordacei-lhe com trapos de desejo. Com alicates de agonia, Arranquei um a um seus dentes. Com martelos de  desprezo Martelei cada um de seus dedos. Com mãos de vingança Arranquei seus cornos e Com os mesmos perfurei Diversas vezes, seu abdômen. De suas vísceras fiz um colar, Adornado com perolas que fiz de seus olhos Sua genitália dei, para que seu cão se alimente Assim como com todos seus restos. E não tenha medo, Estarei sentado aqui Velando-te Ate que o cão devore seus últimos vestígios. De tudo, O que extraio de ruim É o saber que Durante anos, sempre  esteve aqui.

Porque o café tem que esfriar?

Quando fica pronto, quando sai do fogo, Ele é forte E queima E é vivo E esta, sempre disposto a ser consumido. Mas o café esfria E fica amargo E torna-se consistente E nem ser apreciado ele quer. Mas quando alguém, como ele, Triste, Frio E amargo, decide tomá-lo. O café recusa E torna-se mais denso E mais amargo E mais frio,. A pessoa insiste E joga-o na boca E é amargo E é pastoso E difícil de beber. O café resiste, A pessoa força Ele escorrega A pessoa engole E eles se fundem. Porque o café tem sempre que esfriar?

"MAIS PEQUENO"

Às vezes eu vejo gente, As vezes eu ouço vozes. Gente feia no que faz, Gente injusta no que diz. Pequenas no que fazem. E é considerável que seja, "Mais pequeno", levar adiante Ao invés de deixar morrer em cinzas. Penso que são como pombos esfomeados, Quais com adagas matariam uns aos outros E apodreceriam junto às migalhas que não puderam comer. ("mais pequeno" sim e não "menor" porque tenho o direito        E a liberdade de usar assim, puna-me quem puder.)

O LIXO

Passei a pouco por um bar Dentro eu via alguém, Não era o dono Era talvez, um pai bêbado Ou um mendigo sem lar Logo depois, dois cavalos, Um potro e sua mãe. Reviravam e tiravam do lixo O que achavam pra comer. Mais a frente, duas mulheres. Uma linda menininha e sua mãe Reviravam e tiravam do lixo O que achavam pra comer. O lixo é assim, Quanto mais lixo se olha Mais lixo se vê Quanto mais lixo se ouve Mais lixo tem a dizer. Quanto mais no lixo se vive. Menos ele te deixa viver. O desejo aqui é outro. Não é ter roupa de grife Nem sapato da moda, O desejo é Um trapo que te cubra E algo que tenha sola. Um mero metro de trapo. Costurado. Com carinho modelado. Uma saia, um chale, um guardanapo. Um presente. Com o dinheiro do lixo foi comprado. O lixo é assim.

A Peste

Um vento frio sopra a nuca Descoberta pela falta de coragem. Uma geração toda destruída pela descrença, Enquanto uma porção de ratos Pregam mentiras e envenenam as crianças. Condicionados a lutar para vencer, Vencer alguém é fazer alguém perder, Humilhar um fraco, cutucar uma ferida, Propagar o desencanto. Lutar pela vitoria é o mesmo que Lutar pela derrota, só deixar de ser sua Pra pesar, contaminar e apodrecer Os ombros de outro.   Orgulho de ter um troféu Refletindo a derrota de alguém Refletindo a humilhação do perdedor Refletindo o chão onde viu seu adversário. Se é esse o seu orgulho...